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  • Mirta Fernandes

Psicanalise on-line: uma experiencia possível?

Atualizado: 19 de set. de 2020



ENCONTROS CORONA

Encontros on-line, presenças virtuais. Momentos possíveis no cenário pandêmico que nos encontramos. Surpresa e aprendizado para todos a experiência de viver as atividades cotidianas de trabalho, estudo e trocas sociais e afetivas exclusivamente através das telas compartilhadas. Há algum tempo estávamos gradativa ou aceleradamente imergindo nas telas com as mídias sociais e com os diversos grupos menores, mais íntimos, que se constituíram na principal forma de comunicação entre as famílias, amigos e trabalho. As ligações telefônicas foram sendo substituídas por mensagens de texto ou de voz e logo acompanhadas de imagem tornaram-se o principal veiculo de comunicação entre as pessoas. Amigos, filhos, pais, parceirxs que se encontram distante geograficamente, diminuem a saudade, trocam afetos e mantém laços.

O mundo, as cenas cotidianas compareciam através das telas em velocidade incessante, em tempo real, de todos os cantos do planeta. Um frenesi de informações praticamente impossível de acompanhar. O pequeno pedaço de vida de cada um, seu universo familiar e social ao mesmo tempo que se ampliou mundo afora, se distancia de seu núcleo, de sua vida cotidiana, que parece ir perdendo interesse. Nos núcleos familiares torna-se quase “padrão”, cada membro de uma família nuclear possuir seu celular, mesmo as crianças, e este se constituir no elemento de ligação com o mundo e contato e exploração de seu universo particular. Cenas em restaurantes, em casa, mesmo em encontros, onde cada um está imerso e conectado com seu celular, passaram a ser vistas frequentemente.

Neste cenário que vinha sendo interrogado por filósofos, educadores, psicanalistas, e pensadores da cultura e dos costumes em geral, surge um vírus desconhecido, de difícil controle e que atinge praticamente todo o planeta, constituindo-se numa pandemia que vai se alastrando pelos países com um índice de mortalidade alarmante.

Toque de recolher, manter-se em casa, afastar-se fisicamente das pessoas a seu redor. Vida social proibida em ambientes públicos e também reuniões em grupos em ambiente privado. O contato físico com outra pessoa torna-se o principal veiculo de transmissão do vírus, sendo portanto o modo principal de cuidado e proteção.

Todos confinados em suas casas, cada um com sua tela particular, poderosa ferramenta para trazer o mundo externo para dentro do espaço privado e manter vínculos. Trabalhar on-line constituiu-se em modo padrão para todo tipo de atividade que não fosse essencial para a sobrevivência. Assim, nós psicanalistas, alguns com experiências pontuais em atendimentos on-line, outros convictos da impossibilidade de conduzir sua pratica por meios virtuais, praticamente todos se viram impelidos a lançar-se nesta “aventura”.


Uma aposta se lança na possibilidade de condução de uma analise sem a presença física do paciente e do psicanalista. Aposta levada a sério, posso afirmar, no espaço profissional que frequento. As analises passaram a ser conduzidas on-line, não sem interrogações criteriosas e esforço de elaboração teórica por parte dos analistas com seus pares e nos seminários, lives e encontros virtuais. Ainda não é possível fazer afirmações definidas muito menos definitivas mas tem sido possível recolher das experiências algumas observações significativas.

A grande maioria dos pacientes que se encontravam em atendimento psicanalítico optou por sustentar suas analises em modo virtual. A frequência e assiduidade se mantiveram e com certa surpresa nós analistas constatamos que o trabalho de associação livre, de elaboração e a dinâmica das sessões não sofriam o prejuízo que imaginávamos. Ainda não é possível uma compreensão dos efeitos desse trabalho, dos impasses e dificuldades decorrentes desta forma de operar na clinica psicanalítica, mas algum trabalho analítico parece estar sendo possível. As demandas por atendimento aumentaram, pacientes que haviam interrompido suas analises retornaram. O fato das pessoas estarem reclusas em seu ambiente domestico parece ter intensificado a necessidade e a importância de que os vínculos já estabelecidos não se perdessem.

O desejo do analista comparece com sua presença mesmo virtual, sua voz, suportando a inclusão de um extimo, um infamiliar recusado, incomodo, que angustia. Acolher as demandas, ouvir, interrogar essa estranheza familiar que comparece para todos em sua relação com a vida possibilita novas formas de laços, novos arranjos subjetivos.

A pratica da psicanalise não se restringe ao divã, à analise individual. Seguindo com Freud e Lacan, a teoria da psicanalise pode e deve estender-se ao social. O psicanalista deve estar à altura de seu tempo, acompanhar, avançar e antecipar-se quando possível. Não se trata de fazer uma analise do social, da sociedade, nem analise de grupo mas promover interlocução com outros campos de saber, outras áreas do conhecimento e do humano.

Em interlocuções com o campo do Direito, da Medicina e particularmente no campo da Educação as trocas tem se mostrado importantes e significativas. Não se trata de levar a teoria da psicanalise como um saber especial que vá esclarecer ou orientar, mas estabelecer um circuito de trocas, uma circulação discursiva que promova um espaço de escuta onde a palavra circula horizontalmente, sem hierarquia, acolhendo e recolhendo do encontro entre subjetividades diversas, questões e soluções possíveis diante dos impasses que se apresentam na vida, nas atividades profissionais, sociais e nas relações pessoais.

O mal-estar inevitável da vida em civilização não pode e nem precisa ser excluído do contexto social ou familiar mas impõe-se que se inclua na medida em que é justamente este ponto de estranheza com um outro semelhante, tão diferente ao mesmo tempo, que produz trabalho, elaboração e invenções. Orientar os impasses coletivos subjetivamente implica em sustentar as diferenças, as singularidades e um espaço de respeito à diversidade fundamental para a civilização humana.

Encontros com educadores nas escolas e neste momento em reuniões on-line com pais, professores, alunos, criam um espaço de ventilação por onde circulam saberes diversos todos imprescindíveis para fazer frente aos avanços biotecnológicos do mundo contemporâneo e contribuem significativamente para o avanço e sustentação da psicanalise assim como para os outros campos de saber.

Sustentar uma presença, um lugar de referencia para endereçamento das angustias, medos, sonhos, desejos implica a presença e o desejo do analista. O analista, também ele um sujeito, mas advertido da estranheza que constitui o ser falante, orientado pela ética do desejo e dos recursos subjetivos advindos de seu próprio percurso de analise, ocupa esse lugar de referencia que permite ao sujeito entrar em contato com esse mundo interno intimo e estranho ao mesmo tempo e interrogar as certezas que o aprisiona, tecendo novos percursos subjetivos, criando e inventando caminhos para os impasses e surpresas que a vida apresenta.

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